À conversa com o técnico do GD Águias de Camarate, Pedro Correia Braz.

Primeiro de tudo seja muito bem vido ao nosso clube e é endereçando votos de muitas felicidades e sucesso ao leme da nossa equipa que gostaria de começar esta nossa conversa para dar a conhecer o mister aos sócios e adeptos do Águias de Camarate.

- O mister Pedro começou bem cedo nestas andanças da observação e treino do futebol, com que idade e o que o levou a entrar neste mundo do futebol fora das 4 linhas?

- Antes de mais agradeço a forma como fui por todos aqui recebido e dizer que estou aqui porque senti que queriam realmente a minha presença neste projeto e foi isso que me fez aceitar. 

Comecei fora das 4 linhas com 19 anos. Tinha feito o meu último ano de Júnior e não queria continuar a jogar no mesmo clube onde fiz a minha formação toda e na altura teria de dar mais 1 ano “à casa”, o que por um lado me fez deixar de jogar, e porque na altura queria (e fui) para a Academia Militar, o que impossibilitava jogar/treinar. Mas depois de já lá estar dentro fiquei a pensar que queria era ser treinador e se calhar essa opção condicionaria esse sonho… Porque quando se sonha, sonha-se sempre em grande… Por esse motivo resolvi ir antes para a Faculdade de Motricidade Humana para a licenciatura de Ciências do Desporto.

Já tinha a intensão objetiva de ser treinador nessa altura, e com a ida para a faculdade, onde tinha aulas de Futebol com, na altura professor, o treinador João Barbosa fez aquele “clic” que tinha de ir para a prática.

Comecei no ano 2005 aqui nos sub 11 dos nossos vizinhos Sport Clube Sanjoanense e na pré competição do Sport Lisboa e Benfica, ao mesmo tempo, como treinador estagiário, auxiliando a treinadora Helena Costa entre outros técnicos que me ajudaram a dar os primeiros passos.

- Em 2006, apenas com 20 anos, teve a sua primeira experiência no estrangeiro, nos sub20 do Figueirense do Brasil, como surgiu esta oportunidade e porquê?

- Na altura havia a possibilidade de continuar no Benfica e deixar de ser estagiário, mas um protocolo que existia entre a minha faculdade e algumas faculdades no Brasil, levou-me a concorrer a esse programa de intercâmbio e fui selecionado para ir para a minha preferência, que era uma Faculdade em Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Uma vez lá, através do professor de futebol dessa faculdade, eu e outro colega propusemos realizar estágio no Figueirense, o clube mais expressivo da cidade, que na altura disputava a 1ª liga (Brasileirão) e assim fomos integrados na 2ª equipa, os sub 20.

- Cerca de dez anos depois, outra passagem pelo estrangeiro desta vez no Irão onde subiu à 1ª Divisão, como adjunto do mister Carlos Manuel, como surgiu esta oportunidade e porquê o Irão?

- No futebol os projetos surgem sem ser exatamente para onde e quando queremos… E temos de saber agarrar os projetos que nos interessam. Assim foi com a ida para o Irão, não imaginando que tal oportunidade iria surgir. A ida para o Irão surge, porque estava no Oriental com o treinador João Barbosa, que já tinha trabalhado com o Carlos Manuel em Angola. Quando o mister Carlos Manuel ia renovar com o Sanat Naft, para mais uma época no Irão, pediu “ajuda” ao João Barbosa para que recomendasse alguém da sua confiança… E assim foi que se deu a ida para a Ásia.


- O que achou da diferença tanto futebolística como cultural, em suma, da experiência que viveu neste País que a maioria de nós desconhece?

- Bem, acho que há tantas coisas que poderia contar e tantos pormenores do dia-a-dia… que só vivendo… mas as situações mais marcantes foram: o calor (vivíamos na cidade mais quente do Irão), passou muitas vezes os 50 graus…; as diferenças entre géneros e as regras associadas, viam-se por exemplo homens a caminhar à frente de mão dada e as esposas iam atrás… jantares mais formais as mulheres não comiam no mesmo local que os homens, na altura a não existência de mulheres nos jogos…; depois as crenças deles, as rezas 3x por dia, sempre virados para Meca, e outras rotinas associadas, o sacrifício de carneiros antes dos jogos… normalmente à porta do hotel onde estagiávamos eram degolados os animais e os jogadores pisavam o sangue antes de entrar para o autocarro… para dar sorte…; depois o tempo e as distâncias das viagens quando se joga fora de casa – num país daquela dimensão, normalmente num dia viajávamos para a capital, onde treinávamos e depois viajávamos para a cidade do jogo, ou próxima do jogo e o resto de autocarro. Normalmente eram 2 aviões e 2 autocarros para ir e o mesmo para voltar e uns milhares de kms feitos.

- Soube que teve também uma outra experiência num estágio com uma equipa japonesa! Mais uma experiência enriquecedora certamente, o que nos pode falar disso?

- Foi uma experiência como adjunto do mister Bastos Lopes, que mais uma vez me convidou a acompanhá-lo. Surgiu através de um empresário no caso o Dionísio Castro que não se portou bem comigo, mas não me vou alongar… Valeu sobretudo pela experiência com uma cultura diferente, onde se nota uma postura totalmente diferente dos jogadores no treino e a sua forma de estar, comparando com aquilo que estamos habituados, os treinadores são vistos como autoridade… No caso a equipa estava numa fase entre competições, uma vez que no Japão as competições são concentradas num momento do ano e não ao longo do ano como cá. Portanto a equipa veio fazer um estágio cá em Portugal e nós fomos os treinadores. Miúdos sub 17.


- O mister já teve experiências como observador do Sporting e Benfica após passar por algumas equipas técnicas, porquê, esta passagem pela observação?

- No Benfica não foi na observação, mas sim mesmo no treino, como descrevi antes. Estive na observação no Sporting e sim no Oriental, mas com funções totalmente diferentes na área de Scouting. No Sporting era Observador Técnico na área do Recrutamento, observando e identificando jovens talentos para integrarem os escalões de formação do clube. No Oriental, integrei o projeto quando o clube passou à fase final do Campeonato Nacional de Séniores, para a Observação e Análise dos adversários, que culminou com a subida à Segunda Liga e continuei esse trabalho nesse ano seguinte com mais responsabilidades e mais acompanhamento da equipa, passando a filmar também os jogos da nossa equipa e agilizando todo o trabalho com outro observador, comunicando com os outros clubes da 2ª Liga e, passar as informações pertinentes ao treinador.

A ida para o Sporting surgiu aquando da minha formação académica. O clube estava a recrutar pessoas da área e deu-se a ida para lá, uma vez que conseguia e podia conciliar com as minhas funções de treinador e sempre era mais uma experiência e aprendizagem. Ainda estive alguns anos nessas funções.

O projeto Oriental surgiu de um convite do mister João Barbosa, que já tinha sido meu professor… E apesar do que me fascina ser o treino… e o terreno, uma vez que tinha acabado de sair da Lourinhã, resolvi aceitar e ter outra nova experiência e ajudar no que consegui.

- O Mister foi campeão pelo Lourinhanense, tendo subido à antiga III Divisão Nacional, subiu também à 2ª Liga aquando da sua passagem pelo Oriental, experiência de vitória não lhe falta!
Foram estes os pontos altos até agora na sua carreira?

- Não, na realidade fomos foi campeões da antiga III Divisão Nacional, no último ano que existiu e “subimos” ao Campeonato Nacional de Séniores, que foi criado no ano seguinte. No ano seguinte fomos Vice-Campeões no Oriental e subimos à Segunda Liga. No clube seguinte também subi à Primeira Liga no Irão. Foram de facto 3 clubes seguidos com 3 subidas. Sem dúvida que qualquer subida de divisão seja em que projeto, divisão ou função for, é sempre um ponto alto numa carreira, a meu ver. Todas tiveram um sabor especial e diferente e em contextos diferentes. Muita gente me disse e diz que não devia aceitar projetos arriscados como os que se sucederam. Mas acho que lutar por uma manutenção e consegui-la tem um valor, significado e sentimento tão ou mais marcante como uma subida e é isso que vamos fazer aqui este ano. Gosto de desafios difíceis, tenho ambição, mas grande vontade de superar obstáculos que sejam difíceis.


- Com estes anos de experiência que já tem, só nos últimos anos abraçou projetos como técnico principal, certamente que sente uma responsabilidade e dificuldade diferente, mais exigente, do que quando era adjunto, coordenador ou observador certo? Como tem sido para si esta experiência de técnico principal?

- Não posso esquecer também os 6 anos em que fui treinador principal nos escalões de formação, antes de passar para os campeonatos nacionais séniores e na verdade antes de ir para a Lourinhã assumi o cargo no Algueirão em 2012, depois mais recentemente sim, no Malveira, Carregado e agora Camarate. Sinto que é uma responsabilidade e pressão diferente, mas pela experiência que tenho muitas vezes a falta de estabilidade traduz-se em piores resultados. É o que eu sinto. Culturalmente há muita coisa a mudar, mas estar nesta posição é sem dúvida aquilo que mais me fascina e dá prazer a nível “profissional”. O que eu gosto é do treino e de preparar uma equipa para competir, pena não poder continuar a viver só disto.

- Falando agora do nosso momento actual, o Pedro sendo um homem do futebol certamente já conhecia o GD Águias de Camarate, qual era a sua opinião do relativamente ao nosso clube antes da hipótese Camarate?

- Curiosamente antes de ir para o Irão falaram-me muito ao de leve sobre a hipótese Camarate, cheguei a vir ver jogos no nosso campo, mas tirando isso não me lembro de defrontar o clube, nem enquanto jogador, nem enquanto treinador, o que é curioso... Sendo um clube de Lisboa. A opinião é que era um clube de bairro, não no sentido pejorativo, mas sim no sentido de meter muita gente e gente aguerrida que puxa pela equipa e com quem é difícil de lutar pela vitória, sobretudo em casa alheia. Mais que isso não posso opinar, porque não conhecia nada da realidade da vida do clube.

E agora, sendo o Co-Coordenador Técnico do Futebol do clube bem como treinador principal, confirma a opinião que tinha ou, de alguma forma, hoje tem uma opinião diferente?

- Na verdade estou a ajudar na Coordenação do Futebol do clube com o mister Fábio Santos dos Juniores. A opinião que tenho atualmente é totalmente diferente do que pensava, uma vez que o clube tem muito mais gente que pensava, é muito mais eclético do que eu pensava, maior do que eu pensava, e sobretudo as pessoas que acompanham ativamente a vida do clube têm uma visão e um objetivo de estruturar o clube de forma organizada, devolvendo ou criando uma identidade própria com princípios e valores definidos para esse caminho que estão a traçar. Destaco sobretudo a forma positiva como estão presentes as pessoas da direção.


- O mister chega a Camarate numa posição que nenhum treinador gosta, ter de substituir um colega e pegar numa equipa que não foi inicialmente trabalhada ao seu próprio estilo de jogo. Sente-se confortável com esta situação?

- Não é não gostar, só não é a situação ideal. Maioritariamente porque se querem implementar ideias e comportamentos que obviamente demoram a ser adquiridos, aprendidos e terem uma resposta estável com sucesso, ao mesmo tempo que a competição está a decorrer. Por isso é que a pré-época é muito importante, porque a equipa pode e deve chegar ao primeiro jogo já com um conjunto de comportamentos já bem definidos sobre a forma de estar em campo. Nós temos de fazer isso ao mesmo tempo que os jogos estão a decorrer. Mas isso não me deixa desconfortável, apenas não é uma situação ideal para quem precisa de ganhar ao fim de semana, ou pelo menos quer. Não quero com isto dizer que antes não tenha havido esse trabalho, atenção, apenas que com pessoas diferentes, as ideias são diferentes, o que implica trabalho para as desenvolver.


- Os dois primeiros jogos do mister foram vistos da bancada, este domingo já estará no banco,  uma estreia num jogo para a Taça da AFL contra o histórico Belenenses. Em género linha do tempo, como está a ser a adaptação aos primeiros treinos, balneário, jogos e clube?

- Se tudo correr bem a estreia no banco será este fim de semana, em casa com o Belenenses para a Taça. Já agora, aproveito para deixar uma nota sobre esta infeliz ida para a bancada nestes últimos jogos. A AFL, este ano, não inscreve os treinadores apenas com a Cédula de Treinador como até aqui, que é aquilo que os credibiliza, agora pede também o documento que deu origem à cédula, que é redundante, por esse motivo tive que solicitar ao IPDJ, um certificado de reconhecimento de competências, processo esse que não é tão célere como se gostaria.

Relativamente à adaptação está a correr normalmente bem. Conhecendo cada vez mais os jogadores, as suas formas de estar e consequentemente e eles também a minha, e a nossa, forma de trabalhar. Sinto que a equipa precisa, quer e mostra vontade, de ganhar e tal acontecerá com naturalidade. Aquilo que já foi feito já demonstrou isso. Creio que nos próximos tempos as coisas aconteçam mais fluidas e o próprio plantel fique mais definido, concentrando-nos todos em criar uma unidade e sermos mais fortes que ontem.

- Julga que será fácil transmitir a sua ideologia de jogo sem ter tido uma pré-época para montar uma equipa à sua imagem?

- Nunca é fácil transmitir algo utópico e inacabado como é um modelo de jogo conceptual naquilo que depois se consegue aplicar na prática, ainda para mais quando há sempre 11 do outro lado a dificultar toda a nossa “vida”, mas é como disse atrás, a grande questão é que temos de ir adquirindo e aplicando em contexto competitivo, desde as coisas mais basilares até conseguirmos chegar aos pormenores, já com a competição em andamento… Não tanto uma dificuldade, mas um constrangimento…


- Como vê a actual competitividade do futebol distrital?

- Muito sinceramente, cada vez maior. Acho que se trabalha cada vez melhor e cada vez mais próximo daquilo que se passa “lá em cima”. É tudo uma questão de recursos. Passando à nossa realidade, posso arriscar que seja muito provavelmente um campeonato da “honra” ou 2ª divisão agora, mais competitiva, desde que formaram este modelo. Acho que metade das equipas têm a ilusão de lutar até ao fim pelos primeiros lugares e a outra metade por escapar à descida.

- Como co-coordenador do futebol, e tendo a necessidade de recorrer a um jogador júnior logo no primeiro jogo, como vê o estado da formação do nosso clube dada a nossa realidade?

- Penso que é precoce tecer algum comentário mais formal ou definitivo, quando a análise é reduzida. Tenho visto a forma de trabalhar dos escalões de formação e obviamente todos temos ideias diferentes, mas penso que se trabalha bem, sobretudo vejo cooperação dentro da estrutura e não só juniores que vão aos séniores, mas juvenis aos juniores, etc. Gostava de conseguir colocar algum a jogar. Vamos ver com o tempo, avizinho um plantel sénior extenso, não ideal como eu gosto de 22 jogadores, mas irei contar com eles todos, portanto vamos deixar que o tempo, os comportamentos, as atitudes e performance dos jogadores ditem essa caminhada.

- Estando na coordenação, como é que o mister vê a situação da paragem dos campeonatos da 3 divisão, onde estão as nossas equipas de juvenis e iniciados, por desistência de diversas equipas?

- Penso que a realidade de hoje gira muito em torno da receita/despesa que cada escalão de cada equipa consegue tornar positiva… Esse balanço vai ditar muitas vezes a sustentabilidade das equipas. Recorde-se que para competir a despesa é relativamente grande e a fonte de receitas dos clubes nem sempre é grande. Penso que muitas vezes não há jogadores “pagantes” suficientes para assegurar uma equipa em número mínimo para essa competir. É de lamentar que essa gestão não seja prevista atempadamente e os clubes inscrevam equipas que depois não têm condições de competir, preferindo pagar uma multa, bem como o facto de não haver jovens suficientes a praticar a modalidade, seja qual for o motivo. Por outro lado, acho que foi importante a reorganização do campeonato, para não haver séries com disparidade de equipas e equipas sem competir durante várias semanas.


- O que é que entende que poderá mudar ao nível do futebol distrital para potencializar a projecção e divulgação do futebol distrital?

- Não é “puxar a braza à minha sardinha”, mas acho que profissionalizar ao máximo os agentes desportivos. Dirigentes, treinadores, deviam ter condições mínimas para estar no ativo, e exigir formação adequada (já em vigor para os treinadores, que despendem milhares de euros, e depois feitas as contas não têm esse retorno), haver um número mínimo de jogadores formados localmente também seria um caminho para que se trabalhe melhor em cada “casa”.

- O que está a achar do nosso clube, extra futebol, neste primeiro contacto?

- Como disse anteriormente, a extensão que o clube tem, a dedicação das pessoas ao clube… Também já vi que este departamento de comunicação também é forte a divulgar aquilo que é a vida do clube.

- Para finalizarmos com umas perguntas e respostas mais rápidas, no campo do futebol profissional, qual é o técnico com que mais se identifica?

- Vou colocar alguém com quem não tenha trabalhado, o Carlos Carvalhal, atualmente no Rio Ave. Ideias nas quais me revejo há muitos anos. Lembro-me dele ainda no Leixões.


- Qual é a equipa que, para si, pratica o melhor futebol?

- As que vão em primeiro… Já não sei o que é o melhor futebol…

- Ídolo?

- Meus pais.

- Melhor campeonato?

- Díficil dizer… Pior? CPP 72 equipas (eram 80) sobem 2… descem 20!

- Melhor 11?

- O que meto ao domingo.

- Melhor treinador com que já trabalhou?

- Todos eles. Convido a ver os currículos… e feitos conseguidos.

- Melhor jogador com que já trabalhou?

- Um só? Difícil… Estava aqui a fazer uma lista de um ou outro nome por posição… mas quando estava no Oriental estava lá “um tal” de Bruno Aguiar… Portanto… acho que fico por este campeão nacional.


Mister, acabando quase como iniciámos, desejo-lhe a melhor sorte, que nos corra tudo pelo melhor, o seu sucesso é o sucesso do Águias de Camarate e é para isso que todos trabalhamos diariamente. Um muito obrigado pelo tempo despendido e Força Camarate!